Publicidade
A Hora do Café

“A vida do teu filho não pode esperar”: Ângela Mendonça alerta para os desafios de proteger crianças no mundo digital

Especialista defende presença ativa das famílias, diálogo e acompanhamento da vida on-line dos filhos diante dos novos riscos trazidos pela tecnologia e pelas redes sociais

104
Foto: Sarah Pessoa/Palotina 24 Horas
Publicidade

A proteção de crianças e adolescentes precisa acompanhar os novos espaços ocupados por eles, inclusive o ambiente digital. O alerta é da advogada, pedagoga e especialista em Direito Educacional e nos direitos da criança e do adolescente, Dra. Ângela Mendonça, em entrevista ao jornalista Robson Muniz, no  A Hora do Café, nesta quinta-feira (23).

Durante a entrevista, a especialista abordou os desafios impostos pelo acesso cada vez mais precoce a celulares, redes sociais, jogos e outras plataformas digitais. Para ela, não é mais possível separar completamente a proteção no mundo físico daquela necessária no ambiente virtual.

 

“Todos os direitos para todas as crianças em todos os lugares. Proteger no mundo digital, no mundo real, proteger dentro de casa, na rua, dentro da escola. Onde houver criança, é preciso que haja preocupação e proteção”, afirmou.

Ângela Mendonça destacou que a tecnologia não deve ser tratada como inimiga. Segundo ela, os recursos digitais podem contribuir para a aprendizagem e ampliar o acesso ao conhecimento, mas crianças e adolescentes ainda estão desenvolvendo maturidade e capacidade crítica para identificar determinados riscos.

 

“O mundo é tecnológico. Não se trata de uma lei que proíbe o acesso à tecnologia. Ela precisa ser organizada, preparada e acessada por crianças e adolescentes considerando o seu nível de desenvolvimento e a sua autonomia para perceber os riscos”, explicou.

 

Presença dos pais

Um dos principais pontos defendidos pela especialista durante a entrevista foi a necessidade de acompanhamento dos pais e responsáveis também na vida digital dos filhos.

A Lei nº 15.211/2025, conhecida como ECA Digital, ampliou as regras de proteção de crianças e adolescentes no ambiente on-line e estabeleceu novas responsabilidades para empresas de tecnologia. Na avaliação de Ângela, a legislação também reforça uma mudança importante na postura das próprias famílias.

Para ela, o acompanhamento não deve ser entendido simplesmente como invasão da privacidade do adolescente.

 

“Não se trata de uma invasão, se trata de um cuidado. Nós chamamos isso de pedagogia da presença”, afirmou.

Segundo a especialista, a construção desse acompanhamento precisa passar pelo diálogo, explicando aos filhos os motivos da preocupação e deixando claro que a presença dos adultos tem como objetivo protegê-los.

Ela reconheceu, no entanto, que existe uma dificuldade adicional: muitas crianças e adolescentes dominam as ferramentas digitais com mais facilidade que os próprios pais.

 

“É também um desafio para os pais se atualizarem. A chamada alfabetização digital é uma alfabetização que muitos adultos precisaram percorrer e ainda estão aprendendo”, disse.

Ângela também chamou a atenção para o fato de que os responsáveis precisam acompanhar não apenas os riscos aos quais os filhos podem estar expostos, mas também os comportamentos que eles próprios podem adotar na internet.

Segundo ela, adolescentes também podem utilizar redes sociais, grupos e plataformas digitais para praticar violações contra outras pessoas, o que reforça a importância da orientação e do acompanhamento familiar.

Riscos invisíveis

Durante a conversa, a especialista alertou que situações aparentemente inofensivas podem esconder riscos. Jogos voltados ao público infantil, por exemplo, podem oferecer mecanismos de interação entre usuários e abrir espaço para contatos que os responsáveis desconhecem.

Ela também citou impactos que podem estar associados ao uso excessivo das telas, como alterações no sono, irritabilidade, ansiedade, isolamento e dificuldades na rotina escolar.

A falsa sensação de segurança, segundo Ângela, é um dos principais desafios enfrentados pelas famílias.

Muitas vezes, explicou, os pais acreditam que o filho está protegido simplesmente porque está dentro de casa ou no próprio quarto. No entanto, por meio de um celular ou computador, crianças e adolescentes podem entrar em contato com pessoas e situações localizadas em qualquer parte do mundo.

 

“O acesso mundial a essas crianças aumentou muito os riscos. Antes, nós tínhamos um território mais restrito. Hoje, com o mundo virtual, cada dia chegam questões e estratégias novas”, afirmou.

Por isso, ela recomenda atenção também às informações publicadas pelas próprias famílias.

Fotos com uniforme escolar, localização em tempo real, imagens da residência e detalhes da rotina podem oferecer informações que deveriam ser preservadas.

 

“A pessoa interessada naquele perfil pode estudar aquela criança para fazer uma abordagem que de algum modo a atraia”, alertou.

 

Exposição infantil

Outro tema abordado durante a entrevista foi a exposição constante de crianças nas redes sociais, inclusive em perfis administrados pelos próprios pais.

Para Ângela Mendonça, é necessário que os adultos compreendam que a imagem pertence à própria criança e que aquilo que é publicado hoje pode acompanhá-la durante toda a vida.

 

“A imagem da criança é um direito dela. Não é coisa da família, não é coisa do pai, da mãe ou da professora”, destacou.

Segundo ela, uma publicação aparentemente engraçada durante a infância pode, anos depois, causar constrangimento ao adolescente ou ao adulto que aquela criança se tornou.

A especialista lembrou ainda que conteúdos publicados na internet podem continuar circulando mesmo depois de serem apagados do perfil original.

 

“Quando nós postamos na rede, estamos deixando uma pegada digital. Você pode até retirar uma imagem, mas, se alguém baixou e publica novamente, aquilo volta”, explicou.

A situação se torna ainda mais delicada quando a exposição deixa de ser apenas uma publicação familiar e passa a fazer parte de uma atividade econômica.

Durante a entrevista, Ângela chamou a atenção para crianças cuja rotina é transformada em conteúdo permanente para redes sociais, publicidade e monetização.

Ela defendeu que o interesse e o bem-estar da criança precisam estar acima da produção de conteúdo, da audiência ou do retorno financeiro obtido pelos adultos.

 

“Às vezes, a criança está irritada, cansada e não quer fazer o vídeo, mas os pais forçam. É preciso olhar como essa atividade está sendo desenvolvida e se ela é adequada para aquela criança”, afirmou.

 

Porto seguro

Mais do que ferramentas de controle, Ângela Mendonça defendeu ao longo da entrevista a construção de uma relação de confiança entre adultos, crianças e adolescentes.

Segundo ela, essa proximidade precisa começar ainda nos primeiros anos de vida, inclusive na forma como os pais reagem aos pequenos erros cotidianos dos filhos.

 

“Se no primeiro erro você grita, quando ele tiver um problema novamente, ele pode não querer contar. Vai ficar com medo da reação, da frustração e da impaciência”, explicou.

Para a especialista, os adultos precisam ser o lugar onde os filhos saibam que encontrarão acolhimento quando alguma situação difícil acontecer.

 

“Adulto tem que ser porto seguro. Criança não aprende só pelo que ouve. Criança aprende pelo que vive, pelo que olha, pelo que sente e pelo que percebe”, afirmou.

Essa relação, no entanto, não significa ausência de limites.

Ângela destacou que a sociedade vive uma mudança na forma de exercer a autoridade sobre crianças e adolescentes. Se antes ela estava frequentemente relacionada ao medo e à violência, hoje precisa ser reconstruída com base no afeto, na responsabilidade e na presença.

 

“Presença afetiva é também presença firme. Dizer não também é um ato de afeto”, ressaltou.

Na avaliação da especialista, acompanhar onde o adolescente está, com quem saiu, estabelecer horários e cobrar o cumprimento de regras também fazem parte do cuidado.

 

“A casa espera, a roupa espera, o sono pode esperar um pouco, mas a vida do teu filho não”, afirmou.

 

Sinais de alerta

Mudanças significativas no comportamento também devem receber atenção das famílias.

Isolamento, permanência excessiva no quarto, alterações de sono e alimentação, irritabilidade e queda no desempenho escolar estão entre os sinais mencionados pela especialista.

Ângela também chamou a atenção para o uso dos aparelhos durante a madrugada.

 

“Dar um celular a um adolescente significa que você vai ter que acompanhar. Os pais vão dormir, mas sabem se o filho realmente está dormindo ou se passa a noite mergulhado naquele mundo?”, questionou.

Segundo ela, quanto mais forte for a relação de confiança construída dentro da família, maiores são as chances de que a criança ou o adolescente procure ajuda quando enfrentar um problema.

Para os pais que sentem não ter construído essa proximidade anteriormente, a especialista deixou uma mensagem de esperança.

 

“Enquanto há vida, há possibilidade de resgate. As relações humanas são lindas por isso, porque nós não somos hoje o que fomos no passado”, afirmou.

Segundo Ângela, a reaproximação não precisa começar necessariamente com uma grande conversa. Atividades simples, relacionadas aos interesses dos filhos, podem criar oportunidades para reconstruir vínculos.

 

“São caminhos de aproximação que exigem que você olhe para o seu filho. Quem é ele? Do que ele gosta? O que interessa a ele? É preciso puxar para perto e estar aberto”, disse.

 

ECA Digital

Ao encerrar a entrevista, Ângela Mendonça resumiu a proposta do ECA Digital a partir de uma reflexão sobre a relação entre legislação e cuidado.

Segundo ela, uma lei, sozinha, não é capaz de transformar a realidade, mas pode ajudar a sociedade a tomar decisões melhores.

 

“O ECA Digital é como se fosse uma sementinha para a gente olhar para essa criança, olhar para esse mundo digital e dizer: aqui também eu serei presença, aqui também eu serei cuidado. Meu filho vai usar as tecnologias, mas vai saber se proteger diante delas também”, afirmou.

 

Palestra em Palotina

A Dra. Ângela Mendonça ministra nesta quinta-feira (23), às 19h, no Centro Luterano de Eventos, em Palotina, a palestra “ECA Digital – A Proteção de Crianças e Adolescentes nos Ambientes Digitais”.

O encontro, promovido pela Secretaria Municipal de Educação e Cultura, é voltado a pais, responsáveis e familiares interessados em compreender melhor os desafios e as formas de proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital.

Redação Palotina 24 Horas 
Reprodução permitida desde que seja mantido o crédito ao Palotina 24 Horas.

Publicidade
Publicidade