Foto: Ilustrativa/IA ChatGPT

Uma reflexão sobre o Dia dos Namorados

“Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus; tempo de absoluta depuração; tempo em que não se diz mais: meu amor; porque o amor resultou inútil; e os olhos não choram; e as mãos tecem apenas o rude trabalho; e o coração está seco.” Os versos de Carlos Drummond de Andrade parecem ecoar o sentimento de desencanto que marca muitos relacionamentos contemporâneos. Há uma fadiga emocional que se espalha silenciosamente, como se as promessas românticas tivessem perdido parte de sua força diante da velocidade da vida moderna. O entusiasmo das grandes declarações cede espaço à desconfiança, à superficialidade dos encontros e à dificuldade crescente de construir vínculos duradouros. Não se trata da ausência de amor, mas da sensação de que ele se tornou mais difícil de reconhecer em meio ao ruído permanente do mundo.

Os pontos de vista sobre os relacionamentos também se tornaram cada vez mais distantes. Há quem defenda a ideia do “amor fluido”, marcado pela liberdade e pela recusa de compromissos permanentes. Outros enxergam nesse fenômeno um profundo vazio afetivo, no qual as relações são frequentemente guiadas por conveniências, interesses e benefícios mútuos mais do que por sentimentos genuínos. Curiosamente, a própria noção de amor romântico, tal como a conhecemos hoje, é relativamente recente na história. Os românticos alemães dos séculos XVIII e XIX (como Goethe e Schiller) ajudaram a consolidar a ideia do amor sentimental como ideal de realização humana. Antes disso, e durante a maior parte da história, os relacionamentos eram construídos predominantemente por razões econômicas, políticas, familiares ou patrimoniais. O casamento era, muitas vezes, um contrato de interesses; o amor, quando surgia, era quase um acontecimento secundário.

Talvez por isso seja tão comum a necessidade de exibir relacionamentos perfeitos nas redes sociais. Quanto mais intensa parece a demonstração pública da felicidade, mais ela desperta a suspeita de que algo está sendo compensado ou escondido. O amor verdadeiro raramente necessita de plateia. Ele se manifesta nos gestos discretos, na cumplicidade silenciosa e na reserva compartilhada por quem não precisa convencer ninguém de sua existência. Em um tempo de exposição permanente, a intimidade tornou-se um ato de resistência. E talvez seja justamente por isso que o verso da música de Leonard Cohen permaneça tão atual:

Todos os corações vieram para amar, porém, como um refugiado.”

Foto de capa: Ilustrativa.
(IA/ChatGPT)

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