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A corrupção que começa muito antes dos grandes escândalos

A corrupção não nasceu ontem, nem é uma invenção da política moderna. Há milhares de anos, sociedades já reconheciam que o poder, quando exercido sem limites e sem compromisso com a justiça, poderia ser utilizado em benefício próprio. O Código de Hamurabi, elaborado na antiga Mesopotâmia por volta de 1750 a.C., é uma das provas mais antigas dessa preocupação. Entre suas normas, havia punições para juízes e administradores que agissem de forma injusta ou utilizassem suas funções para obter vantagens. O recado era claro: quem recebe autoridade para servir à sociedade não pode transformar essa autoridade em instrumento de interesse pessoal. A história mostra, portanto, que o problema não é novo. O que muda ao longo dos séculos são as formas, os valores envolvidos e a dimensão dos recursos que estão em jogo. A corrupção acompanha a humanidade desde que o poder passou a representar também uma oportunidade de obter privilégios.

Mais tarde, na Grécia Antiga, Platão, em A República, colocou o problema em um nível ainda mais profundo. O filósofo discutiu como o poder pode corromper os governantes e como os regimes políticos podem se degradar quando deixam de buscar o bem coletivo. A reflexão platônica continua desconfortavelmente atual: não basta criar instituições, leis e mecanismos de controle se aqueles que ocupam posições de poder não estiverem comprometidos com princípios éticos. Um sistema pode ser formalmente democrático e, ainda assim, sofrer um processo de deterioração quando interesses particulares passam a se sobrepor ao interesse público. A corrupção, nesse sentido, não é apenas o ato de colocar dinheiro público no próprio bolso. É também a deformação da finalidade do poder. É quando o cargo deixa de ser entendido como responsabilidade e passa a ser tratado como propriedade, privilégio ou oportunidade de vantagem.

É justamente nesse ponto que o Brasil precisa olhar para si mesmo. Quando se fala em corrupção, a indignação costuma aparecer diante dos grandes escândalos, dos milhões desviados, das fraudes em contratos públicos e dos esquemas envolvendo políticos e empresários. E essa indignação é legítima. Mas existe uma pergunta incômoda que quase nunca fazemos: o que estamos fazendo quando ninguém está olhando? A corrupção também se alimenta de pequenas atitudes cotidianas — mentir para obter vantagem, enganar, burlar uma regra, falsificar uma informação, tentar levar vantagem sobre alguém ou considerar aceitável aquilo que condenamos quando é praticado por um político. Muitas dessas condutas são tão banalizadas que sequer são reconhecidas como formas de desonestidade. É a chamada microcorrupção, que pode começar cedo, dentro de casa, na escola, no trabalho e nas relações sociais. Ao mesmo tempo, parte da sociedade exige punição exemplar para os grandes corruptos, mas relativiza as pequenas trapaças que pratica. E quando o sistema de Justiça é percebido como lento, ineficiente ou leniente, a sensação de impunidade tende a reforçar esse comportamento. Combater a corrupção, portanto, exige muito mais do que prender alguns corruptos ou criar novas leis. Exige uma mudança cultural. Porque uma sociedade que só se revolta com a corrupção quando ela envolve milhões, mas fecha os olhos para a pequena desonestidade do cotidiano, corre o risco de combater apenas os sintomas de um problema que começa muito mais perto — e, muitas vezes, dentro de nós mesmos.

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