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Quando a mentira se transforma em verdade

A propaganda nazista compreendeu, talvez como poucas experiências políticas antes dela, o poder da repetição sobre a percepção das massas. A frase frequentemente atribuída a Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, de que uma mentira repetida milhares de vezes se transformaria em verdade, tornou-se um símbolo dessa estratégia, embora não haja comprovação histórica segura de que ele tenha pronunciado exatamente essas palavras. O que é comprovado é que o regime nazista construiu um enorme aparato de propaganda, utilizando rádio, jornais, cinema, cartazes, discursos e eventos públicos para repetir mensagens, criar inimigos, manipular emoções e apresentar determinadas versões dos fatos como verdades incontestáveis. A repetição não tinha apenas a função de informar: tinha o objetivo de moldar a percepção da realidade.

Hoje, porém, a tecnologia levou esse mecanismo a uma dimensão completamente diferente. Um único post, uma fotografia manipulada, um vídeo fora de contexto ou uma informação falsa publicada por uma única pessoa pode, em poucas horas, alcançar milhões de usuários. A velocidade das redes sociais permite que uma mentira seja compartilhada antes mesmo que alguém tenha tempo de verificar sua origem ou confrontá-la com os fatos. Diferentemente do modelo tradicional de propaganda, que dependia de grandes estruturas de comunicação, atualmente qualquer indivíduo pode produzir e distribuir conteúdo para uma audiência gigantesca. A mentira não precisa mais ser repetida dez mil vezes por uma máquina estatal: o próprio funcionamento das redes pode fazer isso automaticamente, por meio de compartilhamentos, comentários e algoritmos que favorecem conteúdos capazes de provocar reações. Assim, uma informação falsa pode adquirir aparência de verdade simplesmente porque foi vista por milhares ou milhões de pessoas.

No Brasil atual, esse fenômeno ganha uma dimensão particularmente preocupante em períodos eleitorais, quando as redes sociais se transformam em um dos principais campos de disputa política. Enquanto o país enfrenta problemas concretos, como o crescimento das dívidas públicas e privadas, dificuldades econômicas, empresas em situação financeira delicada e incertezas sobre o futuro, o debate público frequentemente é dominado por polêmicas pequenas, acusações, vídeos recortados e notícias falsas que pouco contribuem para discutir os grandes desafios nacionais. Em vez de confrontar projetos, números, propostas econômicas, reformas e planos de governo, parte significativa do debate acaba reduzida à guerra de narrativas nas redes. A consequência é uma espécie de distração coletiva: discutem-se infinitamente assuntos secundários enquanto questões fundamentais permanecem em segundo plano. E quando instituições públicas, inclusive as responsáveis pela fiscalização e pela aplicação das regras eleitorais, não conseguem conter adequadamente esse ambiente de desinformação, o problema se torna ainda maior.

A democracia depende de informação, debate e capacidade de escolha; quando a mentira ocupa o espaço destinado à discussão dos problemas reais, a sociedade corre o risco de escolher não entre projetos de futuro, mas entre versões cuidadosamente fabricadas da realidade.

 

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