Entre 1115 e 1532, Florença viveu o período de sua história conhecido como República de Florença, uma experiência política marcada por disputas entre famílias, grupos econômicos e diferentes forças pelo controle da cidade. Foi nesse cenário que a família de banqueiros florentinos, os Médici, se tornou a principal força política da cidade, exercendo uma influência que ultrapassaria gerações. Florença estava cercada por monarquias e pelos Estados Papais, em um ambiente de permanente disputa política e territorial. Entre os Médici, destacou-se Lourenço de Médici, que recebeu o apelido de “Lourenço, o Magnífico” não apenas pela posição que ocupava, mas também por seus talentos pessoais, seu gosto pelas artes e sua atuação como grande mecenas do Renascimento. Sua influência foi tão marcante que, posteriormente, apareceria também nas reflexões de Maquiavel em O Príncipe, obra que analisou os mecanismos de conquista, manutenção e exercício do poder.
Apesar de Florença possuir instituições republicanas e realizar eleições, a disputa pelo poder estava longe de ser verdadeiramente aberta. As regras e os mecanismos políticos faziam com que os grupos que já controlavam o Estado tivessem enorme influência sobre quem poderia participar efetivamente da vida política. Em outras palavras, as cartas estavam marcadas: para chegar ao poder, era necessário ser aceito ou, pelo menos, não representar uma ameaça aos grupos que já estavam no comando. Assim, embora houvesse eleições e mudanças formais nos ocupantes dos cargos, o poder real raramente mudava de mãos. Mudavam-se os nomes, os cargos e os arranjos políticos, mas as estruturas de poder permaneciam praticamente intactas.
Guardadas as devidas proporções históricas, é impossível não pensar no Brasil quando observamos esse modelo de poder. Aqui também a mudança efetiva de mãos no comando do Estado encontra enormes dificuldades. São vários os motivos: a falta de regras que impeçam sucessivas reeleições, a força das máquinas partidárias, o poder econômico, a baixa participação de grande parte da população na política e, principalmente, o desinteresse de muitos cidadãos pelo funcionamento das instituições. As eleições existem e são legítimas, mas isso não significa necessariamente que produzam uma renovação profunda das estruturas de poder. No final de cada pleito, podemos até ter novos nomes, novos discursos e novas promessas, mas, na maioria das vezes, o resultado parece confirmar uma velha tradição: os novos velhos de sempre continuam ocupando os principais espaços de poder.