Foto: Ilustrativa/Palotina 24 Horas

“Farmar a aura antigamente era voltar pra casa com o joelho ralado”

Nasci na década de 1980. Minha infância não tinha Wi-Fi, algoritmo ou tela de alta resolução. Tinha rua. Tinha poeira. Tinha joelho ralado. Tinha tempo.

Lembro das partidas de bets no asfalto, da emoção de acertar a bolinha e depois correr para buscá-la no terreno do vizinho antes que alguém reclamasse. E os carrinhos de rolimã, então? Nossa, que saudade! Descer a ladeira parecia estar a 200 km/h e, na chegada, ainda tinha aquela derrapada. Bah! Irado!

Lembro também da casa da bisa. Ela tinha alguns pés de bergamota, e eu e meus primos adotávamos uma árvore para cada um. Ali, nossa imaginação transformava um simples pomar em um reino, um forte ou um campo de batalha. As bergamotas viravam munição, troféu ou bola, dependendo da brincadeira do dia.

No fim da tarde, a mãe gritava de casa: “Já pra dentro se lavar!” Era o sinal de voltar para casa. E, se demorasse demais, a palmada comia solta. Hoje, isso pode soar exagerado para muitos, mas havia um limite muito claro entre liberdade e responsabilidade.

Também desenhávamos amarelinha no asfalto com giz ou pedaços de gesso. Brincávamos de caçador, esconde-esconde e pega-pega. É… mas isso era antigamente!

Hoje, porém, a infância ganhou novos cenários. Um dos termos mais populares entre crianças e adolescentes é “farmar a aura”. A expressão nasceu da linguagem dos jogos, em que “farmar” significa acumular ou conquistar algo. Nas redes sociais, “farmar a aura” passou a significar construir uma imagem de respeito, estilo, carisma ou admiração diante dos outros. É fazer algo pensando também no impacto que aquilo terá sobre quem está assistindo.

Outro termo que vem chamando a atenção é “six seven”. A expressão não possui um significado único ou oficial. Entre muitos adolescentes, ela virou uma espécie de gíria associada a alguém que transmite confiança, atitude, presença e certo ar “cool”. Em muitos casos, aparece justamente ligada à ideia de “farmar a aura”: fazer poses, gravar vídeos, caminhar de determinado jeito ou agir buscando parecer mais interessante e conquistar o reconhecimento do grupo.

Para muitos adultos, tudo isso parece vazio ou até ridículo. Mas será que é tão simples assim?

A psicologia comportamental nos ensina que todo comportamento busca atender a alguma necessidade. Nenhuma geração cresce isolada do contexto em que vive. Se a minha geração buscava reconhecimento sendo a melhor no futebol da rua ou a mais corajosa para subir na árvore mais alta, esta geração encontra reconhecimento nas redes sociais, nos vídeos curtos, nas curtidas e nos comentários. A coisa mudou!

Mudou o palco, mas a necessidade humana continua a mesma. O problema não está exatamente em “farmar a aura”. O problema aparece quando a construção da imagem substitui a construção da identidade.

A infância precisa oferecer espaço para experimentar, errar, brincar, negociar regras, resolver conflitos e desenvolver autonomia. Isso acontece em uma partida de bets, em uma brincadeira de amarelinha, mas também pode acontecer em ambientes digitais, quando há equilíbrio e acompanhamento.

Diversos estudos da psicologia do desenvolvimento mostram que o brincar espontâneo fortalece a criatividade, a inteligência emocional, a resolução de problemas, a cooperação e a autorregulação. É durante a brincadeira que a criança aprende, sem perceber, competências que carregará por toda a vida.

Ao mesmo tempo, demonizar a geração atual talvez seja um erro que todas as gerações já cometeram. Nossos pais diziam que televisão demais fazia mal. Os avós reclamavam do rádio. Antes deles, provavelmente alguém criticava os livros por distraírem os jovens.

A pergunta talvez não seja se esta geração está perdida. A pergunta é: estamos ensinando nossos filhos a viver fora das telas com a mesma intensidade com que vivem dentro delas?

Porque as crianças continuam precisando correr, cair, imaginar, fazer amigos e enfrentar pequenos desafios. Elas também precisam aprender a lidar com a tecnologia, que faz parte do mundo em que viverão.

Não se trata de escolher entre o pé de bergamota e o smartphone. Trata-se de garantir que, antes de aprenderem a “farmar a aura” para os outros, nossos filhos aprendam a construir quem realmente são quando ninguém está olhando.

Talvez essa seja a maior missão da nossa geração como pais, educadores e sociedade: formar pessoas que tenham mais essência do que aparência.

Porque a aura que realmente permanece não é a que viraliza nas redes sociais, mas aquela construída pelas experiências, pelos valores e pelas memórias que nenhuma inteligência artificial, nenhum algoritmo ou filtro será capaz de substituir.

Foto de capa: Ilustrativa.
(Palotina 24 Horas)

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